Natal magro e ano novo realista em Portugal


Em meio à crise e a cortes excessivos, "àrvore de Natal" na praça do Rossio provoca polêmica nos portugueses


Medidas de austeridade encolheram a economia e as festas de fim de ano dos portugueses


Uma imensa bola natalina vermelha ilumina a praça do Rossio, lotada de famílias e turistas que saem às ruas para comemorar o Natal em Lisboa. Anjos de luz adornam toda a Rua Augusta. Em meio à névoa de fumaça lançada pelos carrinhos que vendem castanhas, artistas de rua e pedintes clamam por atenção e alguns trocados. Corais de estudantes tentam alegrar a quem passa. “Foi um ano muito difícil para os portugueses, o ‘Pai Natal’ terá muito trabalho para alegrar a toda gente”, diz o comerciante Nuno Gonçalves – que levou os dois filhos para ver o magro Papai Noel português.

As ruas estão cheias, mas as mãos carregam menos sacolas. Os portugueses estão gastando menos que no ano anterior com as compras de fim de ano. Houve uma redução de 87 milhões de euros nos gastos durante a primeira semana de compras natalinas (entre 26 de novembro e 2 de dezembro) em relação ao mesmo período de 2011 – conforme dados divulgados pela Sibs, entidade que administra a rede de cartões bancários no país. A dona de casa Inês Figueira entrou em uma loja, olhou, olhou e decidiu não levar nada. “Muita gente não tem dinheiro nem para as necessidades básicas, temos de poupar para o futuro cada vez mais incerto”, desabafa.

Os votos para um próspero ano novo são mais um costume que uma esperança real. As previsões para 2013 não são nada animadoras, a crise econômica pela qual o país passa está longe de acabar. As medidas de austeridade impostas pela troika (grupo de credores composto por Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), para conter o déficit dos gastos governamentais, atingem em cheio a população. O Orçamento de Estado para o próximo ano prevê mais cortes de salários, benefícios, investimentos públicos e aumento de impostos. Frases como “Que se lixe a troika” podem ser vistas em faixas e muros por toda a capital portuguesa.

A imponente Praça do Comércio, à beira do Rio Tejo, foi o lugar escolhido para receber a árvore de Natal da cidade. Uma pirâmide de lona com 28 metros de altura, no local onde multidões se reúnem para protestar contra as medidas de austeridade e os efeitos da crise econômica, que custou 230 mil euros. A jovem professora desempregada, Catarina Machado, estava com um grupo de amigos pelas redondezas quando se deparou com a obra. “Os lisboetas precisam de condições de habitação, boas escolas, divulgação do seu patrimônio. O Natal em Lisboa dispensa bem ‘mastodontes’ plantados numa praça tão nobre”, lamenta.

Aos pés da árvore, um grupo do jovens cantava canções natalinas e distribuía abraços grátis. Os participantes do movimento “Free Hugs Lisbon” aproveitaram a época natalina para dar um pouco de alegria para quem ali estava no sábado passado, dia 22, com esse gesto simples.

"Queremos incentivar uma energia que seja positiva e que contrarie as circunstâncias difíceis que estamos a passar. O afeto é muito importante nesta altura", declarou Lucília Cruz Pinto à agência Lusa.

O presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, também tentou demonstrar algum afeto ao povo português. Ao lado da primeira dama, gravou uma mensagem de boas festas à população. No vídeo divulgado no site da presidência, o chefe de Estado é esperançoso, porém realista. Conclui: “Desejamos a todos um Feliz Natal. E um ano de 2013 tão bom quanto possível”. 
Foto: Leandro França/Opera Mundi
Via Google Plus

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