Julian Assange entrevista ativistas de direitos humanos do Oriente Médio


Os entrevistados no 4º Programa “The World Tomorrow” são Alaa Abd El-Fattah, do Egito, e Nabeel Rajab, do Bahrein

Brasil de Fato / Entrevista transcrita e traduzida pelo Coletivo Vila Vudu

No quarto programa “The World Tomorrow”, da rede RT (Russia Roday), Julian Assange entrevista dois ativistas de direitos humanos do Oriente Médio. São eles: Alaa Abd El-Fattah, escritor egípcio, e Nabeel Rajab, diretor do Centro de Direitos Humanos do Bahrein.

Rajab foi preso, com outro ativista, logo depois dessa entrevista, no dia 5 de maio, ao voltar ao Bahrein, vindo do Líbano.

Julian Assange: A primavera árabe é a materialização dos sonhos de muitos, ou é uma fantasia impossível? Essa semana, ando na direção contrária à da mídia-empresa internacional e converso diretamente com dois líderes revolucionários.

O escritor e ativista Alaa Abd El-Fattah, que está no Cairo. Foi preso, proibido de viajar, e converteu-se em ícone da revolução traída.

E aqui, na prisão domiciliar em que vivo, em Londres, recebo a visita de Nabeel Rajab, diretor do Centro de Direitos Humanos do Bahrein e uma das figuras mais importantes do levante no Bahrein.

Quero perguntar-lhes sobre as revoluções no Oriente Médio. Foram bem-sucedidas, fracassaram, foram revolução declaradas ou clandestinas? O que os motiva a continuar arriscando a própria vida?

Julian Assange: Alaa.

Alaa Abd El-Fattah: Alô! Olá.

Julian Assange: Você me vê? Aqui ao meu lado está Nabeel, do Bahrein.
Alaa Abd El-Fattah: Sim [falam em árabe]

Nabeel Rajab: Estávamos preocupados com você.

Alaa Abd El-Fattah: É um prazer encontrá-los.

Julian Assange: Você está em liberdade, mas não por muito tempo…

Alaa Abd El-Fattah: Nenhum de nós tem liberdade garantida, não é?

Julian Assange: Não, parece que não [risos]. Mas o que aconteceu nas últimas semanas? Nós convidamos você e tentamos trazê-lo…

Nabeel Rajab: Da outra vez [em que foi convidado]…

Julian Assange: … você estava na cadeia.

Nabeel Rajab: É, é verdade. Estava preso. Me obrigaram a ficar lá metade do dia. Mês passado, fui atacado e golpeado em plena rua. Há alguns meses, uns mascarados dos serviços de segurança entraram na minha casa, arrancaram-me de lá, levaram-me para lugar que não sei onde é, de olhos vendados, fui torturado e, depois, me levaram de volta para casa. Quando informei, pela minha conta no Twitter, que viria encontrar Julian Assange, falar com ele num programa de televisão, à noite minha casa foi cercada por quase 100 policiais, armados de metralhadoras. Até que se deram conta de que eu não estava em casa. Disseram à minha família que eu teria de me apresentar à polícia hoje, até as 4h. Bom… Estou aqui.

Julian Assange: Hoje, às 4h, você está aqui.

Nabeel Rajab: Já tinha vindo. Recebi a mensagem na noite passada e acho… Já estou acostumado.

Julian Assange: O que vai fazer?

Nabeel Rajab: Voltar. Quer dizer, tenho de enfrentar essas coisas. Não é a primeira vez. A luta é essa. Liberdade é isso. A democracia pela qual lutamos é essa, custa caro, tem seu preço e temos de pagar o preço. O preço pode ser muito alto… Tantos já pagaram tão caro, tantos continuam a pagar tão caro, no Bahrein. Estou disposto a pagar pelas mudanças pelas quais lutamos.

Julian Assange: E, Alaa, você está onde? Está livre? Retiraram as acusações contra você?

Alaa Abd El-Fattah: Não, não retiraram acusação alguma. Ainda estou esperando o julgamento. As investigações continuam. Estou proibido de sair do país. Estou sendo acusado de assassinatos, de destruir propriedade pública, principalmente veículos blindados, tanques de combate, de roubar armas militares, de formar quadrilhas para promover atividades terroristas. Dizem que ataquei dois pelotões, roubei armas e matei um soldado…

Julian Assange: Rapazinho muito travesso, hein?!

Alaa Abd El-Fattah: Sim, e verdadeiro Super-Homem! Faço coisas inacreditáveis. Eu, só com as mãos, destruo tanques blindados. [risos] E há testemunhas da acusação que juram que me viram em dois lugares distantes, ao mesmo tempo. Mas, como ainda estão investigando, com certeza ainda descobrirão novas façanhas dos meus superpoderes. É assombroso. Mas tenho ótima reputação, na cidade e na prisão: lá, o pessoal é acusado de roubar carros, motocicletas… Mas eu sou o único que rouba tanques blindados! [risos]

Julian Assange: Na sua opinião, como vai acabar isso?

Alaa Abd El-Fattah: Não sei se estão mesmo interessados em mim, ou se a ideia é usar os processos e os julgamentos como ferramenta legal contra todos os ativistas. Parece que não basta espancar manifestantes e ativistas, não basta matar gente nas passeatas. A verdade é que, quando se ouve falar de assassinatos seletivos, de vítimas predefinidas para morrer, aqueles assassinados sempre são pessoas muito importantes, mas pouco conhecidas do público. O problema deles somos nós, os ativistas mais conhecidos, os nomes que todos ouvem nas ruas: o que fazer conosco? Então, acho que estão tentando inventar uma farsa de legalidade, uma farsa de legitimidade, essas investigações e audiências e tal, que usam contra nós. Até agora, fracassaram sempre e perdem tempo. O meu caso continua a ser investigado, e, enquanto investigam, eu já sou declarado culpado de todos os crimes. É possível que, com o tempo, consigam arruinar minha reputação. Agora, por exemplo, divulgaram que apoio os homossexuais. É mais uma ‘acusação’ que, como o roubo de tanques blindados, mais melhora do que agride a minha boa reputação na praça.”
Entrevista Completa, ::Aqui::
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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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