Duplo ensaio sobre a cegueira


“Há uma ficção que corre solta hoje tanto nas entrelinhas quanto na linha de frente da expansão dos grupos e partidos de extrema-direita na Europa: a de que eles não são racistas. A eleição francesa, que culmina no próximo dia 6 de maio, fornece um bom material para essa reflexão.

Flávio Aguiar, Carta Maior

Peço permissão a Saramago para glosar o título de seu romance de ficção científica para abrir uma discussão sobre a pretensa ciência de uma ficção que corre solta hoje tanto nas entrelinhas quanto na linha de frente da expansão dos grupos e partidos de extrema-direita na Europa (e talvez alhures também): a de que eles não são racistas.

A eleição francesa, que culmina no próximo dia 6 de maio (como a eleição grega), deu um bom material para essa reflexão. Como exemplo, sugiro consulta a essa matéria publicada recentemente no The Guardian:

Nela um jovem militante da Frente Nacional, de Marine Le Pen, expõe abertamente seu ideário e suas razões para fazer essa escolha. Esclarece, inclusive, a estratégia da Frente e de Le Pen que, no 1º. de maio, declarou votar nulo, embora liberasse (como une reine) seus seguidores, ou súditos, para votar de acordo com a consciência de cada um.

Para o jovem militante (da região de Vaucluse), que pretende se eleger para o Parlamento em junho, a eleição de Hollande seria, em primeiro lugar, uma catástrofe. Seria um desastre econômico imediato, piorado pelo fato de que ele abriria de imediato o voto para os imigrantes e chegaria, certamente, ao ponto de “permitir a fundação de um partido islâmico”.

Porém isso traria efeitos positivos. Em primeiro lugar, provocaria a desintegração da União por um Movimento Popular (UMP), o partido do atual presidente. Desse modo, argumenta o jovem voclusien, a Frente Nacional de Le Pen, se tornaria a força unificadora da direita na França, e, com os desastres de Hollande e seu credo à esquerda, ela teria 80% de chances de se eleger presidenta daqui a 5 anos.

Diz o jovem que a atual Frente, graças à atuação de Le Pen, se livrou dos velhos dinossauros racistas, que hoje é um partido moderno que atrai “managers, funcionários públicos, jovens estudantes de escolas de prestígio, estudantes de direito”, enfim, “gente de fato inteligente”. Até mesmo, insiste ele, jovens de ascendência imigrante, mas que se tornaram legítimos franceses. Queremos, diz ele, um “protecionismo inteligente”, o que a seus olhos nada tem de racista.

“O Islã tem de se adaptar à França, não o contrário. O estado secular tem de ser forte, de se impor. Se eles querem viver aqui, devem respeitar nossa cultura, como se eu vivesse no Marrocos. E sabe, é natural não sentir afinidade com quem não se parece, não se veste, não se comporta como nós. Só o ‘politicamente correto’ impede que as pessoas digam isso”.
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