Quando os governos sentem-se pisando em ovos


“China, Europa, EUA: sinais de instabilidade espalham-se pelo mundo. Por trás deles há, também, sombras de insensatez e guerra

Rafael Poch, La Vanguardia / Outras Palavras

A confusa destituição de um alto dirigente na China profunda, os novos sobressaltos da eurocrise e o poema de um escritor alemão são as últimas peças de um quebra-cabeças: incerteza, crise e belicismo. Peças que não se encaixam de todo, daí a confusão, mas que sabemos relacionar entre si. O aparente vigor alembão na crise depende da china. Os dirigentes chineses estão nervosos porque sentem o solo tremer sob seus pés. Na Síria, arma-se o que poderia ser um “big-bang bélico”. O escritor Günter Grass, que adverte na Alemanha para o perigo de uma grande guerra, é atacado por argumentos cuja estupidez é multiplicada pela unanimidade disciplinada com que são formuladas.

China:

Que se passou em Chongquing, cidade pobre e congestionada (currante), no interior de um município de 30 milhões de habitantes, o mais povoado do mundo? Seu líder, que desenvolvia uma nova linha “social”, invocando uma cenografia maoísta, niveladora e anticorrupção, foi fulminado. Era Bo Xilai, filho de um pai-fundador da Revolução Chinesa, ex-guarda vermelho, ex-ministro do Comércio e querido das multinacionais antes de ascender à chefia do Partido Comunista em Chongquing, um Boris Yetlsin chinês?

Recordemos que Yeltsin começou como “lutador contra os privilégios da nomenklatura. Reclamando-se herdeiro da pureza leninista. Apoiou-se nas ruas, não foi fulminado a tempo e acabou conquistando o poder e dissolvendo o Estado soviético. A China não é a Rússia e além disso os dirigentes de Beijing têm muito em mente o que passou na União Soviética. Mas é fato que, às vésperas do 18º Congresso, no próximo outono [do hemisfério Norte], quando o partido passará o comando a uma nova geração, os dirigentes mostraram-se muito nervosos diante de Bo Xilai. Vincularam sua mulher, Bu Kailai, com a obscura morte de um empresário britânico. Destituíram-no entre advertências contra uma nova “revolução cultural”. Que se passa na China?

Ocorre que os dirigentes sentem que caminham sobre cascas de ovos. A integração à economia global, que permitiu o prodigioso ascenso do país, é vista como possível causa de seu afundamento. Sabem que se entrar em colapso a economia global, da qual tanto dependem, deverão tirar a gravata e vestir o uniforme. Em Beijing, esta percepção tornou-se clara há alguns anos, bem antes de quebra do banco Lehman Brothers, institucionalizar, em 2008, a “crise financeira”.

As mudanças de linha política na China são surpreendentes. Aconteceu com o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural: inesperados, incompreensíveis. O mesmo em relação com as reformas pró-mercado que sucederam-se a Mao. Agora o debate não é se a China vai viver uma nova guinada, mas que profundidade ela terá.

Há uma década, o setor publico, empresas estatais, partido, exército, polícia e sindicatos estão ganhando peso às custas do setor privado que, apesar das aparências, nunca deixou de ser criatura do Estado. O debate de fundo parece ser: se o setor exportador quebrar e o belicismo despontar como solução global para uma grande crise do capitalismo, o poder deverá estar bem amarrado, para que a situação não fuja ao controle. Bem amarrado para afirmar um desenvolvimento mais endógeno, mas baseado no consumo interno – para ocupar a população e impedir sua revolta, enquanto se organiza um poder militar de dissuasão e evitar o cinturão de ferro que os Estados Unidos estabelecem há anos, estabelecendo bases, alianças e deslocamento de armas em torno da China.”
Tradução: Antonio Martins / Imagem: Alonso Durán 
Artigo Completo, ::Aqui::
Via Google Plus

About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

Contato- nogueirajr@folha.com.br
Revista- WMB

    Blogger Comment
    Facebook Comment

0 Comentários: